LIBERTAÇÃO
Invariavelmente, à palavra libertação associam-se diversas ambições humanas quais: ver-se livre do jugo, da opressão de qualquer natureza, dos muitos impositivos que esmagam os sentimentos, do cerceamento à livre movimentação, da necessidade de segurança e apoio...
É indescritível a ânsia do escravo em relação à sua liberdade física, política ou social, adquirindo o direito de cidadania, que lhe confere recursos para uma existência digna.
A Páscoa judaica refere-se a essa conquista, quando o povo hebreu, ao comando de Moisés, libertou-se da sujeição ao egípcio, experimentando a incomum aventura de atravessar o deserto, na busca do lar, na conquista da felicidade sob a inspiração da esperança e da paz.
Ainda hoje, essa libertação é-lhe significativa, porque, a partir daquele momento, toda uma nação levantou-se para construir o futuro, assentando suas bases na luta saudável pelo bem-estar.
Antes de Moisés, no período nômade, quando eram constituídas as doze tribos, a Páscoa era a celebração da primavera, quando a terra se renovava com a presença da vida.
Mais tarde, após a morte de Jesus, tornou-se, para os cristãos, a celebração comemorativa da Sua ressurreição que, seguindo o calendário lunar, é vivenciada no primeiro domingo, depois do plenilúnio do equinócio de março.
Nos três aspectos, a Páscoa significa alegria de viver, exaltação da liberdade, confiança na imortalidade. [...]
Existem escravos políticos, raciais, sociais, por causa das vigorosas tenazes da inferioridade moral que predomina nas criaturas humanas, que submetem as outras, dominadas pelo egoísmo e pela prepotência, pelo orgulho e pela cegueira em torno dos direitos alheios.
Libertar-se desses algozes internos constitui um desafio de alto porte, que não pode ser desconsiderado.
O espírito avança no rumo da plenitude, e tudo quanto o retém na retaguarda, transformasse-lhe em injunção penosa que terá de vencer.
Esse esforço vigoroso não pode, não deve ser postergado, nem transferido para ninguém, porquanto faz parte da agenda evolutiva de cada qual.
Desse modo, a liberdade passa a ser considerada como um estado de espírito, uma conquista interior que se refletirá no comportamento, induzindo o indivíduo à superação das próprias mazelas, à dignificação pessoal, ao cumprimento dos deveres que o assinalam na escala ascensional do progresso. [...]
Jesus foi enfático ao ensinar: – Busca a Verdade e a Verdade te libertará, da submissão ao jugo da ignorância, da escravidão aos instintos e paixões servis, dos tóxicos dos prazeres enganosos, das graves situações embaraçosas...
Libertar-se das amarras internas, a fim de que o solo do coração reverdeça, ensejando flores e frutos de misericórdia e amor, tornando-se seara de luz, constitui a razão de uma existência lúcida e operosa.
Há, naturalmente, um preço a pagar, que é o do sacrifício, da constante vigilância, a fim de que o escalracho do mal que pode permanecer seja arrancado, sem dano à planta boa do conhecimento.
(O Amor Como Solução – Joanna de Ângelis/Divaldo Pereira Franco)
NA LUTA CRISTÃ
Diz o Mundo: "Aproveita a mocidade para gozar."
Adverte a Fé: "Mais tarde darás conta do uso que deste ao corpo moço."
Convida a Terra: "Avança! Não te detenhas! Aproveita agora!"
Admoesta a Religião: "O amanhã te surpreenderá. Tem cuidado."
Gritam muitos: "Viver é desfrutar a carne. Enquanto há vida, sorri o prazer. A morte é o fim..."
Respondem os imortais: "Viver é realizar-se. Ninguém, nada morre. Tudo evolve."
Apelam os caídos: "Experimenta o calor do gozo, e viverás integralmente."
Afirmam os libertos: "Gozar não é descer à lama do crime e da libertinagem; é plainar nas asas da retidão e da liberdade."
Repete o Mundo: "Fé religiosa é para os tíbios e fracassados."
Conclama Jesus Cristo: "Eu venci o mundo."
Enquanto você jornadeia na veste carnal, clamam mil vozes, chamando-o.
Não as escute.
Aquiete os gritos da própria ansiedade e alce-se ao amor para ouvir somente as doces vozes do verdadeiro bem.
Aquinhoado que você foi pela fértil doação da crença realizadora, não se entristeça nem receie em hora alguma.
Muitas vezes, será necessário que o coração se alanceie, para que você possa valorizar devidamente as altas expressões da virtude.
O cristão decidido não para para tomadas de contas com o mal nem com o erro.
Iluminado intimamente, clareia por onde passa, derramando luz na trilha que vence.
"Carta-viva" da Vida Maior, anuncia a glória da imortalidade.
Coração livre, não carrega elos partidos como lembranças das cadeias de outrora. Conhece, realiza, vive.
Abra, assim, clareiras na sua alma, em processo de renovação, e guarde a certeza de que a luta favorece os que perseveram no bem com as nobres concessões da paz e da felicidade, quando cessam as duras e rudes refregas, na busca da liberdade real.
Pe. Natividade
(Crestomatia da Imortalidade – Diversos Espíritos/Divaldo Pereira Franco)
A QUEM SE APROXIMA
Muitos, em se aproximando das revelações espirituais, julgam que, imprimindo seriedade à vida, matam a alegria de viver. Sem dúvida, os dias humanos são desfrutáveis, em júbilo sadio. Mas aparecem excessos e distorções.
Há quem viva na festança irresponsável, no abuso sistemático ou na excitação absorvente; em certo instante surge o desastre, a crise e a alteração perigosa, por desafios do destino, convidando ao balanço moral. E o espírito mergulha em reflexões e confissões inaudíveis para os outros. E sofre. Para que sofrer sem necessidade?
A alegria real, que nunca foi simplesmente agitação de músculos faciais, há de partir da aceitação da vida continuada, à luz da consciência em paz. Regozijos de convenção quase sempre não passam de exibições fantasistas, fugazes, falsas. E, por trás deles, insatisfações inarredáveis perduram. [...]
Esposar as realidades do espírito não implica refugiar-se a criatura em padrão claustral de solidão e tristeza. Vivamos como os demais, renovando o que exige renovação. Em qualquer parte, a ausência do bem é maior e tão grave quanto a presença do mal. [...]
Compense o máximo de palavras batidas com um mínimo de ações novas, pelo menos. Que pessoas você fez mais felizes, na semana? Que exemplos de maturidade espalhou? Que atitudes assumiu para educar-se e beneficiar os que lhe partilham a convivência? A vida é jornada no Sempre. Todo ato faz-se companheiro invisível. Vejamos os companheiros que elegemos hoje para a viagem.
Kelvin Van Dine
(Página recebida pelo médium Waldo Vieira, em reunião pública da Comunhão Espírita Cristã, na noite de 2-3-63, publicada em Reformador, julho de 1964)
OS EVANGELHOS EXPLICADOS
Origem e Evolução do Espírito
(Mateus, 1: 1 a 17 - Lucas, 3: 23 a 38 - continuação)
Em sua origem, a essência espiritual, princípio de inteligência, Espírito em formação, passa primeiro pelo reino mineral. Anima o mineral, se deste modo nos podemos exprimir, servindo-nos dos únicos recursos que oferece a linguagem humana apropriada às vossas inteligências limitadas. Tudo, com efeito, na natureza, tem existência, porquanto tudo morre. Ora, aquilo que morre traz em si o princípio de vida, sendo consequentemente animado por uma inteligência relativa.
Esta palavra — inteligência — pode causar surpresa, tratando-se da vida de uma coisa inerte. Certamente, em tal caso, não há nem pensamento, nem ação. A essência espiritual, nesse estado, se mantém inconsciente de seu ser. Ela é, eis tudo.
No estado então de simples essência de vida, absolutamente inconsciente de seu ser, ela constrói o mineral, a pedra, o minério, atraindo e reunindo os elementos dos fluidos apropriados, por meio de uma ação magnética atraente, dirigida e fiscalizada pelos Espíritos prepostos.
Quanto mais inconsciente é o Espírito no estado de formação, tanto mais direta e incessante é a ação desses Espíritos. [...]
O mineral morre quando é arrancado do meio em que o colocara o Autor da natureza. A pedra tirada da pedreira, o minério extraído da mina, deixando de existir, do mesmo modo que a planta separa da do solo, perdem a vida natural. A essência espiritual, que residia nas paredes do mineral, retira-se daí por uma ação magnética, dirigida e fiscalizada pelos Espíritos prepostos, e é transportada para outro ponto.
O corpo do mineral, seus despojos, são utilizados pela humanidade, de acordo com o que suas necessidades lhe impõem.
Não vos admireis de que a coesão subsista no mineral, por séculos muitas vezes, depois que dele se retirou a essência espiritual que foi necessária à sua formação. [...]
A essência espiritual, que no mineral reside, não é uma individualidade, não se assemelha ao pólipo que, por cissiparidade, se multiplica ao infinito. Ela forma um conjunto que se personifica, que se divide, quando há divisão na massa em consequência da extração, e atinge desse modo a individualidade, como sucede com o princípio que anima o pólipo, com o princípio que anima certas plantas. A essência espiritual sofre, no reino mineral, sucessivas materializações, necessárias a prepará-la para passar pelas formas intermédias, que participam do mineral e do vegetal. Dizemos — materializações, por não podermos dizer — encarnações para estrear-se como ser.”
(Fonte: "Os Quatro Evangelhos", org. de Jean Baptiste Roustaing, psicografia de Émilie Collignon, Ed. Ibbis, Brasília, 2022. Tomo I, Item 56, parágrafos 14 a 21 e 27)
ESTUDOS FILOSÓFICOS: A maior e melhor série de artigos
da literatura espírita brasileira está de volta!
Artigo CDXXXIII - Gazeta de Notícias, 22-03-1896
Não votamos ao esquecimento os ilustrados padres do Apóstolo, e tanto que aqui somos com eles, apesar de não nos terem honrado com a sua contradita.
Andamos escavando e descobrimos bons remédios para a monomania demoníaca d’aqueles bons ministros do altar.
Foi o abade Almignana, doutor em Cânones, quem nos forneceu as preciosas drogas.
Era um sacerdote católico, e de tão esmerado escrúpulo que, diante dos fenômenos espíritas, em que era absolutamente impossível admitir-se a ação do demônio, ele, apesar de tudo, recorria às autoridades superiores da Igreja e até ao Papa.
Não podemos, e bem nos pesa, transcrever todo o trabalho experimental do ilustrado padre, mas, pelos spécimens que damos, reconhecerão os do Apóstolo que o trono de Satanás começa a vacilar, até na crença clerical, que já vai reconhecendo ser este figurão tremendo um verdadeiro símbolo, na linguagem bíblica e evangélica.
Diz Almignana:
“Eis um fato que deve merecer a atenção de todas as pessoas bem intencionadas:
“Em certo dia, uma menina de 13 anos, magnetizada pela própria mãe em minha presença, deu provas de uma lucidez excepcional, chegando a confessar-nos que estava em comunicação com os seres de além-túmulo.
“Admirado, confesso, do que se passava diante de meus olhos, e suspeitando que o demônio fosse o agente daqueles fenômenos, tomei o meu crucifixo e, apresentando-o à lúcida, exorcizei-o em nome de Jesus.
“Veja, porém, o que fez a sonâmbula:
“Em vez de repelir a imagem de Jesus Cristo, segurou com ambas as mãos o crucifixo, levou-o com respeito aos lábios, beijou-o e adorou-o para maior edificação minha e da mãe.
“Estes meios, por mim empregados para saber se o Espírito mau tinha alguma influência no sonambulismo, foram também empregados por pessoas piedosas, com o mesmo fim, sem que contudo obtivessem resultados diferentes dos meus.
“Aos fatos que acabo de citar em favor da não intervenção do demônio, novos fatos de outro gênero se reúnem, confirmando de alguma sorte os primeiros.
“Um dos mestres da eloquência sagrada, o Revd. padre Lacordaire, ocupou-se do sonambulismo em dezembro de 1846. Em vez de taxá-lo de satânico, como o fez o Sr. de Mirville, disse o erudito dominicano, do alto da tribuna da verdade, na igreja de Nossa Senhora de Paris, que ele pertencia à ordem profética e era um preparação divina para abater o orgulho do materialismo.
“Sabe-se que esta linguagem, descida, do alto da tribuna sagrada, mereceu pública aprovação do Monsenhor Affre, chefe da Unidade Católica da Diocese de Paris, o qual, dirigindo-se aos fiéis, disse-lhes: “Meus irmãos, é Deus quem fala pela boca do ilustre dominicano”.
Fiquemos, por hoje, aqui, para fazermos atento estudo dos conceitos emitidos pelo ilustrado e virtuoso sacerdote.
Dizemos ilustrado e virtuoso, porque, neste conceito foi sempre tido o abade Almignana.
Esse virtuoso varão, mesmo por ser virtuoso e sacerdote, parece que deveria repelir in limine o estudo dos fatos produzidos pelo sonambulismo, que é o meio essencial das manifestações dos Espíritos.
Entretanto, apesar de suas condições especiais – apesar da Igreja romana anatematizar o Espiritismo ou sonambulismo, não recuou ante aqueles fatos; e, pelo contrário, julgou dever, em consciência, examiná-los profundamente para certificar-se de sua natureza diabólica ou não
O primeiro que observou, e que acima deixamos transcrito, deu-lhe a convicção de nada ter o demônio com semelhantes efeitos.
Certificou-se disso empregando os meios prescritos pela Igreja, empregados pelos Apóstolos e por S. Paulo, para destruir toda a influência diabólica – e, não querendo confiar em si, levou suas observações ao Arcebispo de Paris e ao Papa, que, diz ele, “não desaprovaram”.
Não desaprovaram, pois, que um sacerdote católico romano estudasse o Espiritismo ou, pelo menos, os fenômenos espíritas – e não desaprovaram as conclusões daquele sacerdote: de nada influir o demônio sobre os médiuns sonambúlicos.
O fato citado, primeiro observado pelo autor, que temos em mão, prova com efeito que a menina médium, longe de repelir o crucifixo, como faria necessariamente se estivesse com o demônio, tomou-o, beijou-o e adorou-o.
De duas uma: ou o demônio tem mais poder que a Igreja, pois que zomba de suas armas, – ou realmente os médiuns não são possessos do demônio, e a Igreja non laudatur anatematizando-os.
Lacordaire sustenta aquela opinião de Almignana, dizendo: que o sonambulismo é um meio divino de abater o orgulho do materialismo.
Como abater o materialismo? Simplesmente para fazer uma pessoa cair em sono? Seria uma tolice inconciliável com aquela brilhante inteligência.
O sonambulismo abate o materialismo, porque torna palpável a existência dos Espíritos, que se comunicam pelos médiuns sonambúlicos.
É isto – e não pode ser outro o sentido das palavras do grande orador sagrado, por cuja boca falou Deus, como disse o monsenhor Affre, chefe da Unidade Católica da Diocese de Paris.
Já veem, pois, reverendos do Apóstolo que os espíritas não somos ovelhas do rebanho de Satanás, cuja influência não inquina nossos meios medianímicos de conversas com os Espíritos.
Deixai correr o tempo – imitai ao abade Almignana em querer ver, observar, experimentar por si mesmo, armado sempre da fé e do símbolo sagrado da redenção – e os fariseus de hoje, que clamam: crucifige, crucifige, serão, – amanhã, os verdadeiros discípulos do Crucificado.
Roma, Roma, foge enquanto é tempo ao lastimoso destino de Jerusalém, que cerrou orgulhosamente os olhos à nova luz descida do Céu, por graça e misericórdia do Senhor.
Roma, Roma, o Espiritismo é a Revelação complementar da Messiânica, – e ai de ti se não lhe abrires tuas portas fazendo penitência.
Max.
Reproduzido conforme texto original. Confira na edição da Gazeta de Notícias de 22-03-1896 Hemeroteca da Biblioteca Nacional.
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